Destino

Toda a minha vida estive aqui e toda a minha vida fui feliz.
Somos vários, diferentes, em forma e em tamanho, mas só nos temos a nós. Somos tagarelas e bem-dispostos. E somos amigos, poderei dizer.
Vivemos numa caixa, é de cartão e já está velha, mas é nossa e nós somos dela.
O nosso dia é simples, ouvimos as conversas dos homens, nas suas vozes austeras e autoritárias, falando de trabalho, sempre de trabalho. Não sei como conseguem conversar sempre sobre o mesmo, e zangados, estão sempre zangados.
Por vezes, os homens abrem a nossa caixa e atiram mais uns quantos para cima de nós e lá temos que repetir as apresentações vezes e vezes sem conta. Preferíamos que a caixa não enchesse mais, que nos deixassem com aqueles que já conhecemos, com aqueles com que já conseguimos lidar, mas eles trazem sempre mais e nós acabamos por nos habituar.
Numa tarde como todas as outras, com baixa luz e ar empoeirado, a caixa abriu e um de nós foi levado. Pegaram nele, sem ver, sem escolher, qualquer um servia. Vi umas mãos enormes e sujas mesmo ao meu lado e sustive a respiração, paralisei e fechei os olhos até me doer, só os voltei a abrir quando senti a tampa ser colocada de volta na caixa, a luz extinguiu-se e ninguém falou, ninguém respirou. Isto nunca tinha acontecido, eles colocam-nos aqui, mas nunca nos tiram. Nenhum de nós conseguia falar e dormimos sem trocar palavra. Todos nós, juntos, imóveis e assustados, tentado adormecer e esquecer o que se tinha passado. Se não pensássemos nisso, poderia ser que nunca tivesse acontecido.
No dia seguinte, talvez pelo silêncio anterior, todos começaram a falar subitamente, atropelavam-se na tentativa de falar primeiro. Queriam sair, queriam ir ver o mundo e cumprir o seu propósito, queriam ser úteis. Queriam sair daquela caixa de cartão, comida pelo tempo que os abrigava desde sempre. Eu não. Eu sempre fui um dos mais pequenos, sempre tive medo, sempre intimidado, agora que já os conhecia não me queria ir embora e recomeçar! Não, eu queria ficar ali entre eles, mas eles queriam sair.
Ainda discutiam como haviam de o conseguir, quando a caixa se abriu e a luz entrou.
Vi as mesmas mãos gordas e sujas entrarem na caixa e apalparem. Vi quando elas se aproximaram, senti quando elas me agarraram e me rodaram nos dedos para verificar se tinha a espessura certa, e eu tinha. Levaram-me assim, preso nos dedos ásperos, um objecto sem valor, como se não tivesse vida, mas eu tinha e ainda conseguia ouvir os meus amigos a gritarem por mim, estavam assustados, já não queriam sair, queriam-me de volta. As mãos continuaram a agarrar-me fortemente como se soubessem que eu queria escapar.
Percebi que cheguei ao meu destino quando me colocaram num buraco, num sítio alto, onde eu consegui ver muitas coisas, vi uma mesa, vi mais homens, vi uma porta e vi um mundo lá fora e de seguida vi as mãos aproximarem-se com uma chave, encaixaram-na em mim e rodaram, uma e outra vez, senti o meu corpo forçar a madeira, uma e outra vez, doía, e quando por fim terminaram, eu estava enterrado num buraco.
Não vejo nada, não oiço nada, não sinto nada. Estou aqui sozinho, num buraco.
Quantos anos vive um parafuso?